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Crónica

Novos Tempos – Voluntariado: fermento de um mundo novo

Chegados ao fim do ano letivo e passadas as épocas de provas e exames nacionais, milhares de adolescentes e jovens entram nas férias de Verão. Contudo, muitos deles queixam-se, ao fim de alguns dias de descanso, de tédio e de estarem cansados de nada terem para fazer. Uma grande parte refugia-se em jogos e mundos virtuais, outros vão a banhos, esturricando ao sol, e alguns iniciam a «peregrinação» dos festivais de música que ocorrem uns atrás dos outros.No fim de tudo isto, pouco ou nada fica além de noites mal dormidas, excessos em bebidas e outras substâncias, isolamento social e infelicidade.Penso que o período de férias estivais, dada a sua extensão de quase três meses, poderia ser um tempo extremamente útil para o crescimento pessoal, social e espiritual.Quanto bem poderia ser feito se fossem organizados campos de férias, se houvesse uma verdadeira formação de animadores e um real programa de voluntariado. Penso que há tempo para tudo e tudo tem o seu tempo. Há tempo para acampar, ir para a praia, participar em festivais e concertos, mas também deve haver tempo para os outros e para construir um mundo mais fraterno e deixar um planeta mais sustentável.Nos meus tempos de estudante, fiz o curso de animadores juvenis dos Salesianos e depois da Escola de Emaús da Comunidade Emanuel. Tive muitas experiências de voluntariado, como por exemplo, acolhedor no Serviço de Peregrinos e de Informações do Santuário de Fátima, por uma quinzena. Essa experiência foi tão gratificante, que em vez de quinze dias fiquei dois meses consecutivos, ajudando nas visitas guiadas, prestando auxílio no Posto de Socorros e nos Serviços Litúrgicos. Anos mais tarde, integrei mesmo a equipa organizadora do Programa de Voluntariado do Santuário de Fátima, nas férias de Verão, nos tempos idos do Jubileu do Ano 2000, acolhendo dezenas de jovens de todo o mundo que vinham fazer voluntariado para Fátima.Foram tempos maravilhosos, pois cada grupo era composto por jovens de todas as regiões de Portugal e de outros países e continentes. Até hoje tenho um vasto grupo de amigos e conhecidos em vários pontos do mundo graças a esta experiência.Os diversos organismos eclesiais e civis deviam propor e promover ações de voluntariado de curta ou média duração (semanas ou quinzenas) em que os jovens pudessem sentir-se úteis à sociedade e aplicar a generosidade que transborda do seu ser. Existem muitos casos de sucesso, mas é preciso mais! Poder-se-iam criar equipas para reabilitar o património; acolher os peregrinos e romeiros nas inúmeras festas e locais de culto; auxiliar nas praias e zonas balneares; promover colónias e campos de férias nas comunidades; e tantas outras coisas que a imaginação e a necessidade suscitem.Deixo aqui 10 valores cristãos fundamentais no voluntariado:

A nobreza da prática desportiva

Desde a eleição do Papa Leão XIV temos tido conhecimento do valor que o novo Sumo Pontífice dá à prática desportiva. Ele é um praticante de ténis, além de aficionado pelo basebol e basquetebol, desportos tipicamente norte-americanos. Frequentava um ginásio em Roma e tinha um Personal Trainer que o orientava na prática desportiva. Vemos que valoriza a máxima latina «mens sana in corpore sano», «uma mente sã num corpo são».Nos últimos dias, o Papa recebeu a equipa de futebol do Nápoles, a propósito da sua vitória no campeonato italiano. Na audiência que concedeu proferiu palavras muito oportunas, para os momentos que vivemos a nível desportivo, dizendo que «ganhar o campeonato é um objetivo alcançado ao final de um longo caminho, onde o que mais conta não é o feito de um momento, nem a performance extraordinária de um campeão. O campeonato é vencido pela equipa, e quando digo “equipa” quero dizer tanto os jogadores quanto o treinador, além de toda a comissão técnica e a associação desportiva.»O Papa Leão XIV salientou, ainda, o aspeto educacional do desporto em geral e do futebol em particular. Pois, dizia ele, «infelizmente, quando o desporto se torna um negócio, ele corre o risco de perder os valores que o tornam educativo, podendo até se tornar “não educativo”. Esse aspeto exige vigilância, principalmente quando se trata de adolescentes. Apelo aos pais e aos líderes desportivos: devemos prestar muita atenção à qualidade moral da experiência desportiva competitiva, porque o que está em jogo é o crescimento humano dos jovens. »A prática desportiva, a inserção numa coletividade, o exercício físico e a capacidade de cumprir as regras do jogo, bem como trabalhar em equipa, podem fazer maravilhas na construção da personalidade de uma criança, adolescente ou jovem.Confirmo, por conhecimento próprio, que o desporto quando é saudável, pode incutir valores, criar autodomínio e prazer por alcançar objetivos. Observei muitos e muitos jovens, os quais não teriam um futuro muito promissor, devido à instabilidade familiar, à inserção em meios desfavorecidos ou ao risco de contacto com a toxicodependência, o alcoolismo e a delinquência, que foi a prática desportiva que os resgatou e os tornou bons e honestos cidadãos.Nos meus tempos de animador e dirigente do Centro Juvenil Dom Bosco, em Pinto Bessa, no Porto, associação ligada aos Salesianos, via o orgulho que tínhamos ao olhar a nossa vitrina de honra, onde figuravam recordações e recortes de jornais de glórias do futebol que o nosso humilde Centro deu a Portugal e ao mundo desportivo, como Fernando Gomes (FC Porto e bi-bota de ouro); Pedro Barbosa (Sporting Club de Portugal); Luisinho (SL Benfica) e João Pinto (Boavista e SL Benfica). Todos eles passaram pelo nosso humilde campo de terra batida… por lá cresceram como jogadores e homens até que alguém dos grandes clubes os observou e os levou às ribaltas, sem nunca esquecerem as origens. O bom exemplo que viram veio muitas vezes à tona nas suas atitudes desportivas. E centenas de jovens sonhavam ser um dia como eles.São Paulo, na primeira Carta aos Coríntios afirmava: «Não sabeis que os que correm no estádio correm todos, mas só um ganha o prémio? Correi, pois, assim, para o alcançardes. Os atletas impõem a si mesmos toda a espécie de privações: eles, para ganhar uma coroa corruptível; nós, porém, para ganhar uma coroa incorruptível. Assim, também eu corro, mas não às cegas; dou golpes, mas não no ar. Castigo o meu corpo e mantenho-o submisso, para que não aconteça que, tendo pregado aos outros, venha eu próprio a ser eliminado.»As palavras convencem, mas os exemplos convertem os corações. Se as nossas associações desportivas, os seus dirigentes, empresários, jogadores e árbitros vivessem as virtudes éticas que o Papa Leão XIV aconselha, como seria diferente o ambiente nos estádios e veríamos a nobreza da prática desportiva. Sérgio Carvalho “Novos Tempos” por Sérgio Carvalho para ouvir na RRB todos os domingos pelas 10H.

Não há perdedores, todos ganham um novo Papa

Jesus disse-lhe: «És feliz, Simão, filho de Jonas, porque não foi a carne nem o sangue que to revelou, mas o meu Pai que está no Céu. Também Eu te digo: Tu és Pedro, e sobre esta Pedra edificarei a minha Igreja, e as portas do Abismo nada poderão contra ela. Dar-te-ei as chaves do Reino do Céu; tudo o que ligares na terra ficará ligado no Céu e tudo o que desligares na terra será desligado no Céu.» (Mateus 16, 17-19)Após os Novemdiales ou Nove Dias Santos que guardam o luto pelo falecimento do Papa Francisco, e que são assinalados por celebrações, sufrágios e orações, a 7 de maio iniciar-se-á o Conclave.Esta reunião, à porta fechada, ou, literalmente, «compartimento que se fecha com chave», marca a fase das votações para a escolha do sucessor do apóstolo São Pedro. Os 135 cardeais, de mais de 70 países, escolherão, fechados na Capela Sistina, sob as pinturas de Miguel Ângelo, aquele que será o Papa e que exercerá as funções de Bispo de Roma, Vigário (Representante) de Cristo, Sucessor do Príncipe dos Apóstolos, Supremo Pontífice, Primaz de Itália, Arcebispo e Metropolita da Província Romana, Soberano do Estado do Vaticano, Patriarca do Ocidente (ou da Igreja Latina) e Servo dos Servos de Deus.Desde os alvores do cristianismo, o sucessor de São Pedro sempre teve como principais missões: manter e confirmar os cristãos na fé; promover a unidade e defesa da Igreja e exercer o chamado «poder das chaves». O poder das chaves consiste em unir ou confirmar a desunião entre a terra e o reino dos céus de alguma pessoa ou situação. Tal poder está retratado nas imagens de São Pedro que aparece sempre com duas chaves na mão e no brasão e bandeira do Vaticano.O Papa é, antes de mais, o «Primus inter pares», o primeiro entre os iguais. É um cristão como todos os outros batizados, mas com uma função e ministérios próprios. É o chamado ministério petrino ou de Pedro. Como dizia Santo Agostinho «para vós sou bispo; convosco, sou cristão». O Papa é aquele que segura a barca de Cristo, confirma e guia os católicos na fé.É dogma da fé católica que, quando o Romano Pontífice ensina de modo oficial e solene «ex cathedra» a partir da «cadeira de Pedro», não erra, pois, é assistido pelo Espírito Santo. Este dogma, definido no Concílio Vaticano I (séc. XIX) é chamado de Infalibilidade Papal.Mas isto não significa que tudo o que Papa escreva ou diga seja dogma de fé. Não podemos cair em «papalatria», muito em voga nos dias que correm. Invoca-se o magistério do Papa para justificar tudo e todos. Frases como «o Papa disse…», ou «o Papa fez…» estão sempre na boca de quem questiona as Verdades da Fé, a Tradição Apostólica ou as decisões de quem preside às igrejas locais (dioceses) e paróquias.Não sabemos quem será escolhido para suceder a São Pedro. Desconhecemos o seu nome e rosto, mas uma coisa é certa – será o Papa certo para o momento concreto que vivemos em Igreja e no mundo.Não alinhemos em apostas e lotarias de quem é o favorito ou mais bem posicionado. Os que são crentes confiam na ação do Espírito Santo e os que são homens e mulheres de boa vontade que estejam de coração aberto e escutem a voz do «bispo vestido de branco».Será escolhido um cardeal, mas não serão umas eleições como o mundo as entende. Não há perdedores, todos ganham um novo Papa. Não alinhemos em circos mediáticos e em teorias da conspiração, porque o Senhor está connosco até ao fim dos tempos. Ele nunca nos abandona, nem abandonará a sua Igreja. “Novos Tempos” por Sérgio Carvalho para ouvir na RRB todos os domingos pelas 10H. Sérgio Carvalho

Incoerência entre fé e atos …

Incoerência entre fé e atos…«Haverá uma só lei para o natural e para o estrangeiro residente que habite no meio de vós.» (Êxodo 12, 49)«Portanto, já não sois estrangeiros nem imigrantes, mas sois concidadãos dos santos e membros da casa de Deus…» (Efésios 2, 19)No dia 8 de abril, assinalou-se o Dia Internacional dos Ciganos. No mesmo dia, o Governo de Portugal divulgava, também, o número oficial de estrangeiros a viver, legalmente, no nosso país, e que atingiu pela primeira vez a fasquia dos 1,55 milhões de pessoas. Ambos os assuntos não têm a ver um com o outro, mas foi curiosa a sua coincidência.O povo cigano vive há séculos entre nós e, atualmente, são cidadãos portugueses de pleno direito, enquanto os imigrantes são aqueles que não possuindo a cidadania portuguesa têm a autorização de habitar e trabalhar em território nacional. São duas realidades diferentes.Na mensagem que a Obra Nacional da Pastoral dos Ciganos publicou pela efeméride referiu que «esta data é também uma ocasião para reconhecer e valorizar a história, a cultura e a identidade do povo cigano, parte integrante da riqueza e diversidade da nossa sociedade. Ao mesmo tempo, é essencial lembrar os desafios persistentes que muitas pessoas ciganas ainda enfrentam no acesso a direitos fundamentais como a educação, a saúde, a habitação e o emprego.»Os ciganos são uma etnia, um povo, com costumes e cultura próprios, mas são cidadãos portugueses. Têm direito à diversidade e muitos esforçam-se por viver como qualquer cidadão, nas suas localidades. A maioria adotou a religião cristã, seja católica ou evangélica.Trago este assunto, porque nos últimos tempos foi noticiada a construção e entrega de casas camarárias, no concelho de Paredes, a pessoas da comunidade cigana. E o que mais me escandalizou foi ver o aproveitamento político da questão a nível nacional, por um partido radical, cheio de gente piedosa, tão santa como os fariseus e doutores da lei dos tempos bíblicos.Lembrei-me a este propósito do primeiro bispo de Setúbal, D. Manuel Martins, que nos anos 90 do século passado, denunciava as freguesias «ultra-cristãs» que tocavam os sinos da igreja a rebate para expulsar os ciganos das suas localidades. A sua denúncia profética mostrava a incoerência entre a fé e os atos que praticavam.O mesmo se passa com estes novos radicais que, através de preconceitos, baseados no ódio e até racismo, querem capitalizar e ganhar votos à custa da perseguição a outros seres humanos. Existe gente boa ou má em todos os povos e etnias. Não se pode medir o todo pela parte.Há alguns anos, lecionava numa escola do Porto onde havia um grande número de alunos ciganos. Quando lá fui colocado, nenhum deles frequentava a disciplina de Educação Moral e Religiosa Católica, pois quase todos eram cristãos evangélicos. Contudo, um dia, tudo mudou.Ouvindo eu o barulho de uma grande confusão no corredor, vim ver o que se passava. Um aluno falava muito alto e não acatava as instruções da auxiliar de ação educativa. Batia nos armários e cacifos. Tive de agir. Disse ao aluno que se moderasse e que respeitasse a funcionária pois ela até já poderia ser sua avó. Ele respondeu-me que eu era apenas «um padreco que ensinava os betinhos». Informei-o, com firmeza, que por acaso não era padre, e que era casado e pai de família, não admitindo a ninguém que faltasse ao respeito a alguém dentro da escola, muito menos a uma senhora.Sanada a situação, a funcionária veio dizer-me «ó professor, porque se meteu? Sabe que ele era cigano? Vai ter problemas».No dia seguinte, ao chegar à escola tinha o patriarca da comunidade e muitos homens da comunidade cigana à minha espera. O patriarca dirigiu-se a mim dizendo: «o senhor é o professor da religião moral?». «Sou, sim senhor», respondi. «O senhor chamou à atenção o meu neto ontem?». «Chamei, sim senhor, porque ele estava a ser indelicado com uma senhora e eu não posso ver e ficar calado».O ancião ficou a olhar para mim e acrescentou: «Nós não somos da religião católica, somos evangélicos. Mas, como aqui na escola não há professor da nossa religião, e o senhor mostrou coragem e força na fé, e eu quero que os meus respeitem toda a gente e sejam respeitados, a partir de amanhã, todos os alunos ciganos vão passar a ir às aulas de religião moral!»Dito e feito. Nos dias seguintes, as turmas aumentaram de número passando toda a comunidade cigana a estar nas aulas de Educação Moral e Religiosa Católica. Sempre se comportaram bem e eram assíduos. Ficavam orgulhosos quanto partilhavam as suas tradições e convicções. O conhecimento destrói os preconceitos.Tratemos todas as pessoas como seres humanos, e que haja uma só lei para todos: a lei da sã convivência e do respeito. Sérgio Carvalho “Novos Tempos” por Sérgio Carvalho para ouvir na RRB todos os domingos pelas 10H.

Papa Francisco: pai, profeta e pontífice

Papa Francisco: pai, profeta e pontíficeMuito se diz e escreve após a notícia do falecimento do Papa Francisco. Não vou cair em palavras de circunstância, nem em discursos eruditos. Apenas escolhi três palavras para o recordar: pai, profeta e pontífice.Mais que um pai, ele foi como um pai dos pais, um avô do mundo contemporâneo. Através do seu exemplo, tentou devolver o lugar dos anciãos, que lhes pertence por direito. As pessoas não podem ser descartadas porque são idosas, limitadas pela velhice ou incapacitadas pela doença. Vejam-se as suas recentes aparições surpresa, numa cadeira de rodas, transportando a botija do oxigénio, revestido com um simples manto. O Papa Francisco foi um verdadeiro pai, como o título de Papa significa, um «papá», como pode ser carinhosamente tratado pelos seus filhos espirituais. Quis ir ao encontro dos seus filhos mais distantes e dispersos, principalmente aos locais onde sofrem ou são minoritários. Amou a todos, todos, todos. Foi até às periferias físicas e morais.O Papa Francisco foi um profeta, literal e cristãmente falando. Literalmente, porque profeta é o “intérprete” ou “porta-voz”, “inspirado pregador ou professor”, de pro – “à frente, mais adiante” ou “para, em nome de”, mais a raiz phanai – “falar”. Ou seja, uma pessoa que falava “o que ia acontecer mais adiante” ou “em nome de alguém”. Através dos seus gestos e escritos, da sua forma de olhar e interpretar os sinais dos tempos, deixou pistas e alertas ao mundo contemporâneo. Denunciou os deuses do dinheiro e das armas. Em tudo mostrou que o centro são as pessoas e que o amor é a chave para todos os problemas do mundo. Do ponto de vista cristão, mostrou onde se encontrar Cristo e qual o caminho para estar com o Mestre: no coração de cada ser humano.Ele foi o pontífice. Nos seus títulos até lhe chamam o Sumo Pontífice. Este título outrora pertença dos imperadores romanos, dos Césares, foi adotado pelo bispo de Roma. O Papa é aquele que faz as pontes entre Deus e os homens, bem como entre os seres humanos entre si. O Papa Francisco fez pontes entre o norte e o sul do planeta, entre os ricos e os pobres, entre crentes e não crentes, entre humildes e os poderosos deste mundo. Denunciou os que, em vez de pontes, erguem muros. Aqueles que não acolhem quem precisa de ajuda, e criam portagens e barreiras que nunca se abrem e cobram com sangue e suor aqueles que as querem transpor.O Papa Francisco foi o 266.º sucessor de São Pedro, aquele que Cristo fez pescador de homens e pedra-alicerce da Igreja Católica. Não sabemos quem vai calçar as «sandálias do pescador», mas para os crentes será, certamente, o Papa certo para o momento que vivemos, indicado pelo Espírito de Deus. Para todos os outros, homens e mulheres de boa vontade, que seja um farol neste mundo que está órfão de pais, profetas e construtores de pontes. Sérgio Carvalho

A maioria silenciosa

Há poucos dias, a Santa Sé publicou o Annuario Pontificio 2025 e o Annuarium Statisticum Ecclesiae 2023, revelando os dados estatísticos da população católica no mundo.Verifica-se, segundo os dados apresentados, que os católicos no mundo são 1.406 milhões de pessoas, correspondendo a um aumento de 1,15%, somando mais 16 milhões de fiéis. A população católica cresceu nos cinco continentes, destacando-se a África com o maior aumento (+3,31%). Relativamente ao número de sacerdotes, na África e na Ásia o seu número aumenta. Por seu lado, na Europa, Oceânia e América diminuem. Globalmente, o número de religiosos professos e seminaristas maiores também registam uma diminuição significativa.A distribuição dos católicos por continente é de 20% na África, 47,8% na América, 11% na Ásia, 20,4% na Europa e 1,9% na Oceânia.O país com maior número de católicos continua a ser o Brasil com 182 milhões de fiéis, mas aqueles que registam uma incidência acima de 90% da sua população como católica são a Argentina, Colômbia, Paraguai, Itália, Polónia e Espanha.Durante esse período, uma Metrópole foi criada; três sedes episcopais foram elevadas a Sedes Metropolitanas; foram criadas sete novas dioceses; uma Sede Episcopal foi elevada a arquidiocese e uma Administração Apostólica a Diocese.Estes números revelam que, apesar da sensação que temos aqui, na velha Europa, o catolicismo continua a crescer e apresenta novas configurações e dinamismos.Vê-se que, em algumas latitudes, onde existem poucos sacerdotes e o rácio de sacerdote por mil habitantes é menor, as comunidades católicas crescem exponencialmente. Isto mostra à nossa Europa, que ainda congrega cerca de 38% do total de padres do mundo inteiro que o número de padres não é sinónimo de fé e de dinamismo e vida. Em todo mundo existem 406.996 sacerdotes. As comunidades congregam-se em torno de outros agentes pastorais.Os católicos são uma maioria silenciosa, mas empenhada na transformação da sociedade. A Igreja Católica é a maior organização sócio caritativa do mundo, com milhares de instituições de ensino e de saúde. E contra factos não há argumentos.Por vezes, parece que tudo está a declinar, mas o que seria do nosso país se a rede de instituições de solidariedade social ligadas à Igreja Católica desaparecesse de um dia para o outro ou se deixassem de exercer a sua missão de viver o amor ao próximo? Quantas pessoas ficariam sem assistência, alimentação, educação e cuidados…Os católicos constroem, silenciosamente, o reino de Deus na Terra. Vão fazendo surgir os novos céus e a nova Terra de que fala o livro do Apocalipse. Lançam sementes de um amanhã mais radioso.Esta maioria silenciosa, guiada pelo Espírito de Jesus, por vezes ferida pelas fraquezas do género humano, vai fazendo o caminho que o seu Mestre de Nazaré lhe legou: amai-vos uns aos outros como Eu vos amei.Se todos os membros desta maioria silenciosa vivessem como nos tempos apostólicos, muitos mais seriam, pois aquilo que fez com que multidões aderissem à fé foi o amor que os primeiros cristãos viviam e partilhavam. Os pagãos diziam: «olhai como eles se amam…»Contra os ventos e marés, a barca de Pedro segue para águas mais profundas e faz-se ao largo…Sérgio Carvalho

É hora de tomar as rédeas do nosso destino

Portugal, como outras democracias europeias, não está imune a crises no funcionamento do seu sistema político. Longe vão os tempos em que o partido que vencia as eleições governava e havia maiorias absolutas que facilitavam a governação. Parece que estamos em ciclos políticos cada vez mais pequenos e que teremos de andar continuamente em eleições. Veja-se a situação da Região Autónoma da Madeira e da República Portuguesa. Nunca houve, desde o 25 de abril de 1974, tantas eleições, tantas dissoluções das assembleias legislativas ou da república. Já dizia Winston Churchill, antigo primeiro-ministro inglês, que “a democracia é o pior dos regimes, à exceção de todos os outros”. A democracia tem limites e falhas, mas dos regimes experimentados é aquele que dá mais garantias de liberdade e de igualdade.  Um dos seus maiores problemas é a capacidade de ver incapazes e corruptos a vencer atos eleitorais. Por isto mesmo, não devemos brincar aos parlamentos e aos partidos, enredando-nos em politiquices e conversas de caserna, mas temos de exercer o nosso direito e dever de eleger e ser eleito com convicção e devidamente esclarecidos. Quem está descontente ou pensa poder ser útil e fazer melhor deve avançar. As campanhas eleitorais devem centrar-se nas ideias e formas que cada partido propõe para que a sociedade se organize e oriente a sua vida em comum. Devemos pôr de lado o debate de caráter e aspetos do foro da vida privada. Todos devemos fazer a nossa quota-parte. Primeiramente, conhecendo os candidatos, as candidaturas e as propostas que defendem. Em segundo lugar, fazer escolhas e exercer o direito de voto. Que moral têm aqueles que não votam e boicotam as eleições para depois exigir, criticar e opinar seja sobre que assunto for? Quem não vota deixa que os outros escolham por si. Portugal vai ter nos próximos meses, quatro eleições: regionais na Madeira (neste mês de março); legislativas em maio; autárquicas (em setembro) e presidenciais em janeiro do próximo ano. Sabemos que as maiorias absolutas são almejadas e queridas por quem se candidata. Mas os eleitores podem dar maiorias a quem não tem capacidade ou razão, mas apenas por são mediáticos, populistas ou porque têm força e poder. Há que implementar uma cultura de compromisso e de coligações positivas. A Igreja não tem partidos políticos, mas os cristãos estão e devem estar envolvidos na política e na causa pública. Não devem entregar as decisões a maiorias ocasionais e flutuantes de modas e humores. A democracia não é a forma ideal, mas é a que faz menos mal à sociedade humana. Como dizia Margaret Thatcher, também ela, primeira-ministra britânica “a democracia não é um sistema feito para garantir que os melhores sejam eleitos, mas para impedir que os ruins fiquem para sempre.” Sim, temos o poder de não voltar a eleger os mesmos, de afastar os incompetentes e os corruptos. Mas, também, de premiar os competentes e os honestos. Temos o poder nas nossas mãos e devemos exercê-lo com princípios éticos. Não podemos cair em generalizações como: «são todos iguais… são todos corruptos…». Isto não é verdade! Há muita gente boa e honesta envolvida nas causas públicas e políticas. Temos é de estar atentos e fazer com que todos os poderes funcionem. Em Portugal, em teoria existe a separação dos poderes, mas depois na prática alguns imiscuem-se. O poder legislativo que reside no parlamento não fiscaliza e controla o poder executivo do governo. O poder judicial fica atado de mão e pés diante de vazios legais ou legislação contraditória. O poder moderador do presidente da república fica reduzido a comentários e conferências de imprensa. E o quinto poder da comunicação social, fiscalizador e inquiridor da verdade fica limitado diante de grandes monopólios detentores dos meios de comunicação. Diante de toda a conjuntura internacional, penso que é hora de tomar as rédeas do nosso destino e os cristãos não podem ficar indiferentes. Sérgio Carvalho

Há que ensinar e viver as virtudes cardeais

Na Constituição Pastoral «Gaudium et Spes», sobre a Igreja no mundo atual, o Concílio Vaticano II afirma, logo no proémio que «As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo; e não há realidade alguma verdadeiramente humana que não encontre eco no seu coração.»(GS 1) A partir desta afirmação, nenhum cristão pode ficar indiferente ou calado diante de tudo aquilo que acontece no mundo e tem de reagir, de acordo com a sua consciência e sentido crítico. Para agir corretamente, o ser humano precisa de exercitar, na sua vida, as chamadas «virtudes cardeais» que devem ser, como o nome indica, o eixo da sua ação. Em latim, «cardo» significa eixo central e até a rua principal a partir da qual se fazia o planeamento urbano, nas cidades do império romano. As virtudes cardeais são, assim, capacidades humanas, eixos, que através do seu exercício, possibilitam ao ser humano a capacidade de uma vida em sociedade mais humana. As quatro virtudes cardeais são a Prudência, a Justiça, a Fortaleza e a Temperança. Penso que nunca, como nos dias de hoje, foi tão necessário ensinar e praticar estas virtudes. Olhamos para o panorama internacional e para o interior de muitas nações e observamos, como tudo isto faz falta e está tão alheado da esfera pública. A prudência é necessária para saber escolher entre o bem e o mal, ou até, na falta de um bem, o mal menor. A justiça capacita-nos para dar a cada um o que lhe é devido e a colocar as coisas no seu devido lugar. A fortaleza é a virtude que nos permite resistir às contrariedades e perseverar no caminho do bem. E a temperança dá-nos a capacidade de usar os bens existentes, sem excessos ou consumismos, nunca escravizando ninguém ou destruindo aquilo que está ao nosso dispor. Como seria útil para o bem comum e a vivência em sociedade se cada um nós praticasse estas virtudes e se as ensinasse pelo seu exemplo e palavra em todos os espaços e meios de que dispõe. Veríamos que os mais fortes não humilhariam os mais simples e fracos; os corruptos não ousavam vangloriar-se das suas fraudes, nem desviar para paraísos fiscais as riquezas de todos nós; os bons teriam coragem e meios para reagir e repor a justiça. E os bens materiais seriam sabiamente distribuídos e estariam acessíveis a todos. Tudo isto pode parecer uma utopia, mas tem de ser uma realidade que devemos procurar e fazer germinar.  Não podemos ficar em silêncio, diante dos imperialismos, dos clientelismos, dos extremismos e dos populismos. Temos de reagir com virtuosidade e combater tudo aquilo que na sociedade contemporânea faz sofrer tantos e tantos seres humanos. Será que podemos compactuar com os caprichos de quem tem mais riqueza pessoal do que muitos países soberanos? Será que é justo alguém ter uma fortuna, a qual se fosse dividida por cada ser humano caberia a cada pessoa um milhão de dólares? Será que acordos assinados com as armas apontadas à cabeça são acordos justos? Será que é lícito perguntar ao agressor se concorda que a sua vítima pare de se defender? Se calhar não era mal pensado tornar o ensino das virtudes uma matéria obrigatória nos programas escolares e todos terem de resolver situações práticas, em casos da vida, para construírem a sua consciência ética e moral, baseada na reta razão. Sérgio Carvalho

A Força da Tradição

A maioria dos cristãos, a maior religião mundial, iniciou a sua preparação para a Páscoa, com a celebração de Quarta-feira de Cinzas. Ao longo de 40 dias, vão viver a Quaresma, um tempo de oração, penitência e conversão, para celebrar a maior festa da sua fé – a Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus Cristo.É certo que, desde o Concílio Vaticano II, muitas das práticas e tradições quaresmais parecem ter caído em desuso, não porque tenham sido suprimidas, mas porque o relativismo de uns e a interrupção da transmissão da Tradição foi interrompida para as novas gerações.Se uns querem fazer uma religião à sua medida, apenas praticando o que gostam e lhes convém, outros, por sua vez, não ensinam, nem transmitem às novas gerações as práticas tradicionais, nem o espírito da Tradição.Como recordo, com saudade, sem saudosismos, as tradições deste período…Se noutros tempos, o início da Quaresma era um dia de preceito respeitado por quase todos, com procissões penitenciais, como vemos em registos fotográficos, por exemplo de Aurélio Paz dos Reis, nos inícios do século XX, no Porto. Verificava-se a afluência massiva às igrejas para receber a imposição das cinzas (feitas com os ramos benzidos no Domingo de Ramos do ano transato), recordando a finitude do ser humano, ouvindo as palavras «lembra-te, homem, que és pó e ao pó hás de voltar». Após as celebrações, os fiéis saíam com a fronte marcada com a cruz e assim permaneciam durante o dia.Noutros tempos, os arranha-céus de Nova Iorque faziam um jogo de luzes, criando a cruz, na iluminação dos edifícios; as cadeias de comida rápida, como a MacDonald’s, criava um hamburger de peixe, o macfish, para não perder clientes, às sextas-feiras, devido à abstinência da carne.Uma cor introspetiva, como o roxo dos paramentos dos sacerdotes, lembrava a penitência e o luto da Paixão de Cristo e a velatio (cobertura das imagens sagradas com panos roxos, para os fiéis se focarem somente na cruz); as flores e ornamentos eram retirados dos altares; dava-se a supressão dos cânticos com a palavra «aleluia», que só ecoariam, novamente, no Sábado Santo, na Vigília Pascal.As celebrações penitenciais, pregações, sermões e o cumprimento do preceito da confissão anual; as vias-sacras nas igrejas e nas ruas, faziam com que tudo fosse num crescendo até atingir o auge, na celebração da Semana Santa e da Páscoa. Muito do que enunciei, é mantido por alguns, outros ab-rogam-se em fazer coisas a seu belo prazer, adaptando-as a modas e sensibilidades.O catolicismo tem como fontes e pilares da Fé: as Sagradas Escrituras, a Sagrada Tradição Apostólica e o Sagrado Magistério. Esta tríplice base assegura o fundamento bíblico da Quaresma, as formas como os Apóstolos e os seus sucessores entendiam e praticavam a fé e os documentos publicados pela Igreja, através daqueles que têm o múnus de ensinar.Porque é que se deixaram morrer e acabar tantas das tradições? Porque é que a Quaresma não é notícia e o início do Ramadão (mês de jejum sagrado dos islâmicos), é sempre noticiado com pompa e circunstância? Haverá jejuns de primeira e segunda categoria?Temos de deixar esta visão laica e jacobina da sociedade, em que a Fé cristã é um assunto do foro privado e remetido às igrejas.Em grandes cidades europeias, veem-se iluminações de «Feliz Ramadão», mas não de «Santa Quaresma e Feliz Páscoa». Se os cristãos em geral, e os católicos em particular, trouxessem novamente as suas práticas e tradições para a vida pública e social, sem revivalismos ou folclore, o ritmo do tempo, teria outro gosto e tudo teria mais sentido.Como sempre, o comércio brinca e ganha com a situação. Basta acorrer aos supermercados e acabado o Carnaval, já está tudo cheio de coelhos de chocolate e amêndoas de Páscoa. E o mais caricato é ver as pessoas sem reação. Bastava funcionar a lei económica da oferta e procura, e tudo mudaria. Sérgio Carvalho  “Novos Tempos” por Sérgio Carvalho para ouvir na RRB todos os domingos pelas 10H.

A primavera das Nações deu lugar ao inverno dos Povos

«Não mudarás os limites do teu vizinho, que os antigos demarcaram na herança que te couber na terra que o Senhor, teu Deus, te há de dar para dela tomares posse.» – Deuteronómio 19, 14«Amarás o estrangeiro, porque foste estrangeiro na terra do Egito.» – Deuteronómio 10, 19Os momentos históricos que vivemos são, na verdade, tempos de grandes incógnitas e incertezas. Segundo alguns líderes mundiais, recentemente eleitos, parece que o Direito Internacional, os Direitos Humanos, a Carta das Nações Unidas, a Convenção de Genebra, já nada valem ou são letra morta.Num abrir e fechar de olhos, voltamos aos tempos dos impérios, das conquistas e da lei do mais forte. São lançados ultimatos sobre as nações, elaboram-se acordos sem ouvir as partes interessadas e envolvidas, fazem-se ameaças de ocupação e até se tenta reescrever a História, rebatizando terras e mares.O mais surreal é que muitas destas investidas provêm de pessoas que, ao tomarem posse como presidentes, juram sobre as Sagradas Escrituras, invocam o nome de Deus a cada momento e até promovem orações antes das reuniões do seu governo.Desde a Segunda Guerra Mundial, o mundo livre e democrático tinha como segura a sacralidade das fronteiras estabelecidas, não havendo tolerância nem espaço para imperialismos e invasões pela força. O respeito pela autodeterminação dos povos e pela liberdade eram sagradas. Tudo isso parece ter acontecido num passado longínquo. A primavera das Nações deu lugar ao inverno dos Povos.O novo presidente americano, de maneira provocatória, ameaça ocupar o Canal do Panamá, anexar o Canadá como 51.º Estado norte-americano, transformar Gaza numa estância de turismo e comprar a Gronelândia à Dinamarca. Além de ousar rebatizar o Golfo do México como Golfo da América.Parece não ter limites, pois negoceia com os invasores russos e apelida de «ditador» o presidente da Ucrânia, país que só não teve eleições livres porque está em estado de guerra há três anos. Exige direitos comerciais e tributos para continuar a apoiar a causa dos justos.O vice-presidente americano, J. D. Vance, enquanto se afirma como católico e faz o sinal da cruz em público, permite que o seu presidente, Donald Trump, diga ao Papa para se preocupar apenas com a Igreja e deixar os americanos em paz e a decidir o que eles quiserem, da forma que entenderem.O Papa Francisco apesar de debilitado, nunca deixou de se preocupar com aqueles que sofrem o drama da guerra, da agressão e da discriminação devido à sua proveniência e pobreza, seja em Gaza, na Ucrânia ou nas fronteiras norte-americanas. É, na verdade, uma das poucas vozes que se levanta, com autoridade moral para denunciar as injustiças e pedir o respeito pela pessoa humana.Como dizia o Papa Leão XIII (1810-1903): “A audácia dos maus alimenta-se da covardia e da omissão dos bons”. Por isso, não podemos ficar calados, mesmo sabendo da pequenez e da humildade da nossa voz. Mas, assim como uma cigarra, numa noite de verão, quase não se ouve se estiver sozinha. Mas, se forem centenas ou milhares, o silêncio da noite será quebrado pela sinfonia do seu canto e todos as escutarão.Juntemos as nossas vozes, denunciemos aqueles que atiram a pedra e escondem a mão, apoiemos os mais fracos e desprotegidos, pois como diz o Salmo 34, 7: «Quando um pobre invoca o Senhor, Ele atende-o e liberta-o das suas angústias.» Sérgio Carvalho “Novos Tempos” por Sérgio Carvalho para ouvir na RRB todos os domingos pelas 10H.